Moacyr Scliar diz que a crônica é uma janela pela qual a literatura contempla o cotidiano. Eu acrescentaria que diante da janela aberta do mundo a crônica é um piscar de olhos. Se no jornal diário a realidade nos obriga a manter os olhos bem abertos, a crônica nos permite piscar, e nesse breve espaco de tempo oferta-nos o espanto diante do lirismo da paisagem que subitamente se apresenta. Do épico objetivo da notícia ao lirismo subjetivo da crônica medeia um piscar de olhos, e, nesse movimento rápido das pálpebras, assoma a poesia do dia a dia. Entre o entrefechar e o entreabrir dos olhos assume o cotidiano na perspectiva de um individuo particular. Cronista é aquele que se espanta e se encanta diante do breve, do passageiro, do transeunte.
(Trecho do Prefácio “A crônica num piscar de olhos” de José Eduardo Degrazia)
Organização: Adeli Sell e Paulo Timm
